A União Européia resiste a aceitar a lista feita pelo Ministério da Agricultura brasileiro com as propriedades produtoras de gado bovino que estariam aptas a exportar ao bloco e não deve publicá-la amanhã (31-01), como estava previsto, apurou o Valor. A decisão já paralisou o mercado de boi rastreado destinado ao abate para embarque a países da UE e, na prática, significa uma suspensão das exportações brasileiras de carne bovina para o mercado europeu a partir do dia 1º de fevereiro.

Na segunda-feira, o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Inácio Kroetz, entregou, a uma equipe do Directorate General for HealthConsumer Affairs (DG Sanco), em Bruxelas, uma lista com 2.681 propriedades produtoras de gado bovino que passaram por auditorias e foram consideradas aptas a exportar ao bloco. Mas, segundo fontes do setor, a União Européia insistiu numa lista com 300 fazendas e teria questionado a rapidez com que as auditorias nas propriedades foram feitas pelo ministério.

A lista foi uma exigência feita pela UE ao Brasil em dezembro passado depois que uma missão técnica encontrou falhas no sistema de rastreabililidade do gado bovino, o Sisbov. Mas também teve o claro objetivo de restringir a entrada da carne bovina no mercado europeu, após forte pressão de pecuaristas irlandeses. Pela decisão da UE, o Brasil faria, após auditorias, uma lista com as propriedades aptas a fornecer gado para abate e exportação ao bloco.

O número de 300 propriedades surgiu em dezembro passado, numa carta enviada ao Ministério da Agricultura pela UE, na qual o bloco econômico lançou a idéia de limitar a lista a 3% das 10 mil ERAs (estabelecimentos rurais aprovados) até aquele momento certificadas pelo novo Sisbov. Nesse caso, apenas 300 fazendas seriam autorizadas. Hoje, existem 6.780 ERAs em seis Estados (Goiás, Minas, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito) habilitados para exportar carne bovina à UE.

Antes do impasse provocado pela rejeição da lista brasileira pelos europeus, a previsão era que a UE enviaria nova missão ao Brasil em março para auditar as propriedades que constassem da lista. Agora, disseram fontes, a UE pretende enviar uma missão ao país no próximo dia 25 de fevereiro. O secretário de Defesa Agropecuária Inácio Kroetz foi procurado pelo Valor ontem, mas não deu entrevista. Hoje, ele se reúne com secretários de agricultura e representantes do setor em Brasília.

As incertezas fizeram os frigoríficos que exportam carne bovina para a UE suspender as compras de gado rastreado para abate. A razão é que as empresas não sabem de que fazendas a UE aceitará animais a partir de 1º de fevereiro. “Estamos comprando gado para mercado interno e para exportação para Rússia e Egito”, disse um proprietário de frigorífico.

Uma circular da Secretaria de Defesa Agropecuária do ministério ao serviços de inspeção de produtos agrícolas, datada do dia 28 de janeiro, reforçou a incerteza. “A Representação do Brasil em Bruxelas informou que não houve reação por partes das autoridades européias [à lista]. Assim, alertamos que, no momento, não há garantias de que a produção de carne fresca de bovinos, obtida de animais oriundos de fazendas constantes na referida lista, poderá ser exportada para aquele bloco econômico”.

A comissária européia da Agricultura Mariann Fischer Boel também insiste em 300 fazendas. Ontem, em Dublin, em encontro da Associação dos Produtores da Irlanda, ela disse que “dos 10 mil estabelecimentos aptos a exportar” para a UE, apenas 300, inicialmente, atendem os padrões exigidos pelo bloco. Disse que a situação continuará sendo revista, mas alertou que se os problemas não forem resolvidos, a UE poderia embargar a carne bovina brasileira.

Analistas do setor afirmam que um dos efeitos da suspensão das vendas à UE, que responde por 26% das exportações totais de carne do Brasil ( US$ 4,418 bilhões em 2007), será a queda dos preços do gado no mercado interno, já que as empresas deixaram de abater animais para a UE temporariamente. Além disso, os preços da carne bovina devem disparar na Europa. Haverá ainda a valorização da carne industrializada. “A demanda deve crescer porque o produto não sofre restrições”, disse fonte de frigorífico.

A rejeição da lista revoltou o secretário de Agricultura de Goiás, Leonardo Veloso: “Estamos fazendo papel de idiotas? Fizemos todo esforço para fazer as auditorias e agora a UE não aceita a lista?”, questionou Veloso.