A pecuária brasileira vive nova fase: de preços em alta e de retomada de investimentos em produção e produtividade. Após mais de dois anos de preços baixos, a recuperação acontece num momento de oferta menor de boi gordo e demanda intensa, tanto do mercado interno, devido à recuperação da renda do trabalhador, como do externo.

O Brasil nunca vendeu tanta carne bovina a outros países como em 2007, mantendo o posto de maior país exportador do produto. Esse aquecimento dos preços não deve parar por aqui. Segundo José Vicente Ferraz, do Instituto FNP, os pecuaristas irão ver os seus bois se valorizarem por mais dois ou três anos. Conseqüentemente, na outra ponta do mercado, o consumidor irá continuar a pagar caro pela carne bovina. Isso irá acontecer porque o processo de reposição do rebanho é lento. Desde 2005, devido aos baixos preços e ao aumento dos custos, o setor elevou o volume de abate de animais, sobretudo de fêmeas, parando de investir na atividade.

Com o aumento dos abates de matrizes, caiu o número de bezerros e, conseqüentemente, o rebanho brasileiro encolheu. Hoje o mercado passa por uma baixa oferta de gado pronto para o abate, o que sustenta os preços em níveis elevados.

Em dezembro, a arroba do boi gordo foi negociada, em média, a R$ 74,69 na região de Barretos (SP), a maior cotação nominal mensal no Plano Real, segundo dados da Scot Consultoria. Já em termos reais, com os valores corrigidos pela inflação (IGP-DI), no mês passado, a arroba atingiu a maior cotação desde janeiro de 2004.

De acordo com Fabiano Tito Rosa, consultor da Scot, outro fator que tem pressionado os preços nesse momento foi a falta de chuvas no ano passado em algumas regiões, o que causou atraso na recuperação das pastagens e na oferta de boi pronto para o abate. Com a seca, o gado leva mais tempo para engordar.

É consenso entre os analistas do setor que os atuais preços não devem ceder, mesmo agora no período de safra da atividade. E mais: na entressafra, no segundo semestre, o preço irá registrar novo recorde. Avaliação distinta tem Péricles Salazar, presidente da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos). Para ele, dificuldades na exportação previstas pelas restrições da União Européia devem limitar os embarques. Essa carne, que seria vendida a outros países, deve ser direcionada ao mercado doméstico, baixando os preços.

Pico de R$ 90:

De acordo com Ferraz, do Instituto FNP, nos próximos meses, os preços do boi devem se manter estáveis nesses patamares, com oscilações naturais. Já no período de entressafra, a arroba deve subir ainda mais. “Na virada de novembro para dezembro, a cotação deve atingir o pico de R$ 90 em São Paulo. Depois, deve cair e se estabilizar num patamar superior ao deste ano”.

Para Tito Rosa, da Scot, em duas semanas, a oferta de gado para o abate deve aumentar, o que pode levar os preços a terem pequena queda, mas permanecendo em níveis elevados. “Na entressafra, as cotações, em termos nominais, devem bater recorde, ultrapassando a máxima de R$ 78 registrada entre os dias 4 e 6 de dezembro”.

Os altos preços do boi levaram os pecuaristas a registrarem lucros no ano passado. Ferraz, porém, alerta para o fato de que os produtores ainda precisam recuperar os prejuízos dos anos anteriores. “Agora está acontecendo o processo de recuperação da receita. O pecuarista vai começar a investir na atividade, buscando maior produtividade e o aumento do rebanho.” Antenor Nogueira, presidente do Fórum Nacional da Pecuária de Corte da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), não recomenda que o produtor invista agora. Para isso, diz, “é preciso que o preço suba mais”.

Segundo Tito Rosa, no último ano, a valorização da arroba superou o aumento do custo de produção. Resultado que levou a atividade a contabilizar lucro. Em 2007, considerando a média de todas as praças pecuárias, o preço do boi aumentou 36%, enquanto os custos da pecuária de corte subiram menos, 22%, segundo cálculos da Scot. Como sinal de que os pecuaristas iniciaram os investimentos, está o fato de que diminuiu o número de fêmeas enviadas para o abate.

Tito Rosa alerta de que, se de um lado a retenção de matrizes é um bom sinal para o longo prazo -pois indica intenção de aumento do rebanho-, por outro lado a ação é ruim para o momento, porque diminui a oferta, já apertada, de gado para o frigorífico.