São Paulo/SP – Os pecuaristas brasileiros ganharam mais que a inflação no ano passado e tendem a continuar com a rentabilidade alta em 2008. Tanto para a produção de leite quanto para a de carne bovina os preços subiram acima dos custos. E, se depender do comportamento do boi neste início de ano, o fato pode se repetir. Na primeira semana de janeiro, a valorização da arroba foi a maior dos últimos 10 anos: 4,2%. Para analistas de mercado, os dois produtos seguem com cotações elevadas neste ano, com tendência de patamares mais altos até 2009, no caso da bovinocultura de corte.

Ontem, a arroba do boi gordo em Barretos (SP) estava avaliada em R$ 75. Desde 2004 que o preço do produto não subiu em janeiro. Naquela época, a valorização foi de 1,6%. Os preços do leite de janeiro só são calculados depois do dia 15 e, por isso, não existe estimativa se o desempenho neste mês é o melhor de outros anos. No acumulado de 2007, o pecuarista de corte teve ganho de 12 pontos percentuais em relação à alta dos custos. Para o de leite, foi apenas de três pontos.

“Temos um cenário de entressafra no começo da safra”, diz Fabiano Tito Rosa, analista da Scot Consultoria. Segundo ele, este fato ocorre porque a pecuária de corte passa por um momento de virada de ciclo — houve retração de investimentos e abate de matrizes, aliada ao problema climático — que retardou a entrada do gado “de pasto” e ao aumento da capacidade de abate dos frigoríficos. Pela sua avaliação, os investimentos das indústrias elevaram a capacidade de abate em 2,5 milhões de animais por ano, mas a oferta diminuiu praticamente na mesma proporção e, diante deste quadro, os frigoríficos estariam trabalhando com ociosidade entre 30% e 40%.

Para Rosa, a perspectiva é que os custos do setor continuem elevados, pois toda a “agropecuária está em recuperação”. No entanto, ele acredita que a elevação dos preços ficará acima da dos gastos. Opinião semelhante tem o diretor da AgraFNP, José Vicente Ferraz. “Houve uma recuperação da margem, que estava negativa, e a tendência é que ela permaneça ou se acentue em 2008 e até 2009”, diz.

Para o pesquisador Sérgio de Zem, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), apesar de os preços terem subido mais que os custos, a alta não foi suficiente para recuperar os prejuízos de três anos com cotações em baixa. Pelos seus cálculos, em relação a 2003, o pecuária ainda está perdendo 30% de rentabilidade.

É este cenário melhor que está fazendo o pecuarista Ricardo Vinha, de Dom Pedrito (RS) voltar a investir na atividade. Ele diz que no ano passado, quando o preço do bezerro chegou a R$ 3 o quilo, ele se desfez de 30% a 40% de seu estoque, que passou a ser recuperado à medida que os custos caíram — no segundo semestre o animal para engorda estava a R$ 2,60 o quilo. “É o momento de começar a investir porque o ciclo está se revertendo. O gado virou um bom ativo financeiro”, afirma
Com desempenho bom, mas não tão elevado quanto o da carne, esteve o leite em 2007.

E as estimativas é que os patamares em 2008 continuem semelhantes aos do ano passado, quando as cotações médias foram de R$ 0,64 o litro para R$ 0,51 em 2006 (deflacionadas). “Apesar da estimativa do preço da razão, acredito que os patamares continuem elevados também para os preços”, diz Cristiane de Paula Turco, analista da Scot Consultoria. Pelos cálculos do pesquisador Gustavo Beduschi, do Cepea/USP, em 2007, um produtor de 300 litros de leite teve um ganho de receita 28% maior que no ano anterior, apenas pelo fato de o preço ter melhorado. Ele acrescenta que apesar de em janeiro a tendência ser de os preços mais baixos, por causa da safra, as cotações internacionais ainda estão acima das médias históricas: US$ 4,3 mil a tonelada, na Oceania, e US$ 3,5 mil a tonelada na Europa, para uma média de US$ 2 mil.

O presidente da Comissão de Pecuária de Leite da Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais (Faemg), Eduardo Dessimoni, acredita em um cenário promissor também, apesar de avaliar que os insumos continuarão em alta. “Haverá uma competição forte da procura pelo milho. E soja acompanha”, afirma.

Suínos
As exportações de suínos aumentaram 14% em volume no ano passado, segundo a Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs). O País vendeu 606,5 mil toneladas para o exterior.