Dois anos após a crise da febre aftosa, o presidente da Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Carne Suína (Abipecs), Pedro de Camargo Neto, diz que o País vive um apagão sanitário. “Temos hoje um apagão sanitário na saúde animal no sentido de falta de gestão”, diz o especialista, que foi secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura no governo Fernando Henrique Cardoso.

Ele afirma que é preciso erradicar a aftosa, mas observa que não dá para prever se isso ocorrerá em dois ou três anos. Segundo o pecuarista, mais do que dinheiro, falta gestão na política de sanidade animal. Camargo Neto diz que “quando as coisas começam a melhorar, ocorre uma relaxada”.

De toda forma, ele observa que houve avanços. Há 15 anos, lembra, existiam milhares de focos de aftosa. Depois houve um foco a cada dois anos. Segundo Camargo Neto, quando o País não exportava carne, mesmo com a ocorrência de focos de aftosa ninguém reclamava. “Na hora que começamos a exportar, um foco é suficiente para criar um trauma.”

Para o pecuarista, apesar dos avanços, há algum tempo o País está andando de lado. “O que precisa é andar para frente e erradicar a febre aftosa”, recomenda. Na sua opinião o que falta para erradicar a doença é estabilidade, consistência e permanência na política de sanidade animal. Isso significa controlar o trânsito de animais e a vacinação.

“Hoje a situação está contornada, mas não resolvida”, afirma o presidente da Abipecs. Depois de cada susto, diz ele, aparece uma política de vigilância sanitária. “Atualmente, devido ao acidente de 2005, temos uma ação de vigilância sanitária mais eficiente em Mato Grosso do Sul, onde houve o problema. Agora, até quando vai durar e se terá estabilidade, não é possível dizer.”

O custo da falta de um posicionamento mais firme em relação à vigilância sanitária fica evidente. De acordo com Camargo Neto, por causa da febre aftosa o País não vende carne bovina in natura para os melhores mercados – Japão, Coréia, Estados Unidos e México. São esses os países que exigem erradicação da doença. Eles representam 40% do mercado internacional, observa. “Se estivéssemos vendendo para esses países, teríamos alguns milhões de potencial de exportações a mais e a preços melhores”, calcula.

Na carne suína, diz, o País praticamente não vende para ninguém. “Vendemos para Rússia, Hong Kong e poucos países. Também não vendemos para Japão, Coréia, Estados Unidos e México. Temos também alguns bilhões de mercado potencial para atender.” Nas contas do pecuarista, se o Brasil vendesse para esses países, as exportações de carne suína poderiam ser o triplo do que são hoje. Em bovinos seriam, no mínimo, 50% maiores.

Do ponto de vista da imagem, ele diz o Brasil está tentando se recuperar. Mas hoje vive uma crise com a União Européia (UE) por não ter cumprido programas de rastreabilidade dos bovinos. Na UE, rastreabilidade é sanidade, diz ele.