Um sentimento de euforia domina os agentes econômicos diante de uma perspectiva extremamente favorável para consumidores, investidores e empresas neste ano.

Entramos no quinto ano de expansão econômica continuada com novos desafios na gestão da política monetária. Um sentimento de euforia domina os agentes econômicos diante de uma perspectiva extremamente favorável para consumidores, investidores e empresas em 2008. Do lado do governo também é visível o otimismo com um ciclo econômico virtuoso que permite uma arrecadação de tributos crescente e, como conseqüência, uma expansão dos gastos públicos sem precedentes.

Chegamos a esta situação depois que o crescimento econômico mundial dos últimos cinco anos provocou uma mudança radical nos preços relativos de inúmeras commodities das quais o Brasil é um dos maiores e mais eficientes produtores. Este ciclo de preços elevados levou, entre 2004 e 2006, a uma mudança radical em nossas contas externas. Os saldos de nosso comércio internacional permitiram que o país passasse a acumular volumes crescentes de reservas cambiais, deixando para trás décadas de recorrentes crises externas.

Com a consolidação deste novo quadro, vultosos investimentos financeiros vieram se somar ao saldo comercial, fazendo com que, ao fim de 2007, chegássemos à incrível marca de US$ 180 bilhões em reservas internacionais. Somente neste ano que passou a entrada líquida de dólares no país chegou a quase US$ 90 bilhões, cifra próxima ao aumento de reservas da Índia no mesmo período. Parte importante desses recursos entrou no mercado local de títulos de renda fixa, provocando uma queda expressiva dos juros e acelerando o desenvolvimento do mercado a termo de juros. Com a disponibilidade desse novo instrumento de sinalização e proteção, além da boa perspectiva para a economia, o sistema bancário aumentou agressivamente suas carteiras de crédito ao consumo. Com isto foram criadas condições favoráveis, junto com o aumento da renda e do emprego, para o crescimento do gasto das famílias, em torno de 6% ao ano nos últimos trimestres.

Além disso, com as condições macroeconômicas estabilizadas e juros mais baixos, as empresas brasileiras passaram a investir fortemente em novas unidades de produção. O aumento das importações – no início bens de consumo e, mais recentemente, de máquinas e equipamentos – criou uma ponte de oferta entre o aumento da demanda e a resposta mais lenta da produção, evitando desta vez a armadilha chamada de vôo da galinha, observada em ciclos anteriores. Até meados de 2007, o efeito microeconômico do aumento do investimento e da penetração das importações dominou a conjuntura inflacionária.

Outro elemento fundamental para o bom desempenho da economia brasileira foi – e continua sendo – a conjuntura internacional. Vivemos neste início de ano um período de grande excitação, que nem mesmo a possibilidade de recessão moderada nos Estados Unidos consegue reverter. Este comportamento está diretamente ligado ao fenômeno chamado de descolamento (“decoupling”), criado pela nova dimensão econômica do mundo emergente em função do dinamismo da economia chinesa, à qual o Brasil está intimamente ligado. A melhor prova dessa realidade, que muitos preferem não enxergar, são os preços das commodities nesta virada do ano, que têm atingido novas máximas, apesar da iminência de uma recessão nos EUA, fato inédito desde os anos 1970. Os mercados acionários de vários países asiáticos continuam no pico e a perspectiva de continuidade do crescimento global é favorável.

Contudo, mesmo com a situação internacional no geral favorável ao Brasil, nossa economia precisa ser vista sob a ótica da sua dinâmica interna. Uma análise mais cuidadosa nos mostra que estão em ação, neste início de 2008, três forças de origens diversas e que se somam na direção de um aquecimento potencialmente excessivo da economia. No primeiro grupo colocaríamos as que derivam de um comportamento clássico do agente econômico em uma economia de mercado e que Keynes definiu como “espírito animal”. Em um ambiente de otimismo generalizado, consumidores, investidores e empresários agem com grande confiança em suas tomadas de decisão. E neste processo apostam na direção de continuidade do ciclo virtuoso do crescimento, correndo riscos maiores e renegando a possibilidade de ocorrência de problemas à frente.

A grande arte da política econômica é operar as ferramentas fiscal e monetária para atingir o pleno emprego com baixa inflação, o que implica não destruir o otimismo do setor privado, principalmente no que afeta o investimento. Isso nos leva à segunda força, a política fiscal. Alertamos repetidas vezes que a correta gestão da política econômica nessa conjuntura de aceleração da demanda privada teria sido recolher o estímulo fiscal, o que infelizmente não foi feito, aumentando em demasia os riscos inflacionários conforme o espaço ocioso na economia era ocupado.

O terceiro grupo de forças pró-cíclicas é o movimento microeconômico de ajustes dos desvios que herdamos de nosso passado de instabilidades e crises. Um exemplo marcante desse fenômeno é o crescimento do volume de crédito no sistema bancário. Já atingimos hoje indicadores – como a relação crédito/PIB – que estão em linha com outras economias emergentes, quando é expurgado o segmento imobiliário ainda nascente em nosso caso. Como sempre acontece no Brasil, essa convergência se deu em prazo muito exíguo de tempo, criando condições perigosas no campo dos preços.