Com as cotações do milho atingindo patamares recordes, o Brasil, com uma safra estimada em 53,3 milhões de toneladas, surge como importante fornecedor de multinacionais pelo mundo, uma vez que os estoques norte-americanos de milho ficarão nos patamares mais baixos desde 1984 e as perspectivas são de aumento na produção do etanol à base do grão.

Além disso, a previsão é de que com a chegada da primeira remessa das sementes de milho geneticamente modificado, liberada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) no ano passado, o Brasil também deva acessar novos mercados e desbancar os argentinos.

“O Brasil tem um mercado diferente dos EUA e da Argentina em função dessa diferença do produto convencional, mas o transgênico aumenta a produtividade e reduz custos, o que tornará mais fácil o ganho de novos mercados”, avalia o analista da Safras & Mercado Eduardo Sarmento. Atualmente Irã, Espanha, Portugal e Coréia do Sul são os principais destinos do milho brasileiro.

Nesse contexto, a aceleração no preço das principais commodities agrícolas, puxadas pelo milho, garantiu uma boa margem de lucratividade às grandes empresas do setor, como a multinacional Cargill Inc., que registrou alta de 44% no último trimestre fiscal e a Caramuru, de capital nacional, que teve um incremento financeiro de 15% em 2007.

O crescimento no faturamento também motivou empresas como a SLC Agrícola a projetarem para a próxima safra uma expansão de área, o que, no caso da produtora de milho, soja e algodão, será de 43,5%.

De acordo com o diretor financeiro da Kowalski Alimentos e presidente da Abimilho, Nelson Kawalski, a participação do Brasil na comercialização mundial de milho já ultrapassa 10%. O executivo, no entanto, ressalta que os produtos industrializados, que são o business da empresa, continuam sendo tratados de forma marginal pelo governo, que procurou escoar a produção da matéria-prima para manter o preço interno. “Além das multinacionais que têm suas ações beneficiadas em outros países, acabamos tendo um concorrente a mais, que é a dificuldade de colocação dos produtos no mercado externo”, afirma.

Com produção mensal em torno de 60 mil toneladas, a Kowalski é uma das principais fornecedoras do mercado interno, para o varejo e para a indústria, de produtos alimentícios e de derivados de milho.

Cotações

Em relação às cotações dos grãos, Kowalski acredita que em 2008 os preços irão flutuar num patamar mais alto que o do ano passado. “Estamos numa escalada, daqui para a frente vamos a um patamar mais alto de preço, tanto do milho quanto da soja, e isso não tem volta”, diz.

Esta semana o preço do milho registrou a maior alta permitida pela Bolsa de Mercados Futuros de Chicago (Cbot) e atingiu sua maior cotação da sua série histórica. Para o vice-presidente da Caramuru Alimentos, César Borges, a alta não era tão esperada, mas a presença de novos players nesse mercado deve mantê-lo aquecido. “Temos observado que os fundos de investimento estão muito interessados em investir em soja e milho, o que deve contribuir para a alta de preços.”

Na sua avaliação, a entrada do Brasil no mercado de milho transgênico deve ser feita com cautela. Apesar da diferença de produtividade existente hoje, quando o Brasil apresenta cerca de 4 mil quilos por hectare enquanto os EUA já registram 10 mil quilos e a Argentina está numa faixa intermediária, o País apresenta problemas de logística e nunca fez nenhuma separação por portos ou por regiões para separar a produção convencional de grãos da transgênica.

“Corre-se o risco de misturar e de o País perder o prêmio que recebe pelo produto não transgênico”, diz. “No ano passado o Brasil pôde praticar US$ 70 dólares de prêmio na média, um valor excepcional; assim, a entrada no mercado de transgênicos é um risco que tem de ser bem avaliado”, completa o executivo.

Apesar da concorrência acirrada com as multinacionais, Borges considera bom o resultado da Caramuru em 2007. Apesar de um crescimento físico de cerca de 5%, o incremento financeiro foi de 15%. “Esse resultado se deve principalmente ao aumento do preço, que, mesmo com a redução de faturamento em razão do câmbio, foi compensatório”, avalia. Para 2008 o executivo da Caramuru estima um crescimento mínimo de 30% em valor financeiro.