São Paulo/SP – O ano que passou foi um período de ouro para a produção de leite no Brasil. Os preços aos produtores foram os maiores em dez anos e a rentabilidade dos pecuaristas mais tecnificados foi a segunda maior entre outras atividades agrícolas e investimentos financeiros. Passou o próprio ouro e só ficou atrás dos fundos de ações, segundo estudo da Scot Consultoria.

No ano em que os preços médios do leite aos produtores subiram 31% em termos nominais e 27% em valores reais (corrigidos pelo IGP-DI) sobre 2006, os custos de produção do setor aumentaram entre 18% e 22% na mesma comparação, conforme a Scot. A média de preços foi de R$ 0,648 (considerando a inflação), o maior valor nos dez anos em que a Scot faz o levantamento.

Maurício Nogueira, analista da Scot, observa que para os produtores de alta tecnologia, que recebem bonificação pela qualidade do leite entregue, os preços médios foram ainda maiores – de R$ 0,75 por litro, também os mais altos nesse mesmo período.

Nesse cenário, pecuaristas que usam alta tecnologia – que ainda são minoria entre os 1,2 milhão estimados para o país – e obtiveram produtividade de média de 25 mil litros por hectare/ano, alcançaram uma rentabilidade de 11,9%, segundo os cálculos da Scot. O número equivale a um lucro operacional de R$ 3,8 mil por hectare /ano, que é resultado da receita menos o custo operacional (custos diretos e indiretos, despesas e depreciação).

Mas para os produtores de baixa tecnologia, com produtividade de 4 mil litros por hectare/ano, 2007 foi ainda um ano de prejuízo, de 1,22%, segundo a Scot.

A alta dos preços em 2007 – reflexo da valorização do leite no mercado internacional e maior demanda interna – também estimulou investimentos por parte de indústrias e produtores no Brasil.

Mais capitalizados, produtores de leite investiram mais em equipamentos para ordenha e resfriadores. As vendas desse tipo de equipamento da WestfaliaSurge do Brasil, por exemplo, cresceram 35%, de acordo com Evandro Schilling, gerente de produto da empresa. “Com o resultado de 2007, adiantamos em um ano o crescimento”, diz, sem citar valores. Ele explica que o aumento das exportações de lácteos em 2007 estimulou os investimentos em equipamentos. “Para a exportação, o mercado exige mais qualidade”, diz.

De acordo com o Ministério da Agricultura, as exportações de lácteos do Brasil somaram US$ 299,495 milhões no ano passado, alta de 77,6% em relação a 2006. O principal produto exportado pelo país foi o leite em pó.

O estímulo para o aumento dos embarques veio da alta dos preços internacionais por conta de demanda maior em países como a China e menor oferta em produtores, como Austrália, e restrições para ampliar a produção na Nova Zelândia. O preço do leite em pó integral na Europa mais do que dobrou e chegou a oscilar entre US$ 5.300 e US$ 5.700 por tonelada, entre os meses de julho e agosto de 2007, conforme o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Agora, o leite já recua e estava na semana passada entre US$ 4.350 e US$ 4.600, segundo dados do USDA citados Nogueira, da Scot.

Para ele, a alta do leite em 2007 teve reflexos na oferta em países produtores, por isso as cotações recuam. Mas Nogueira segue apostando em mudança de patamar dos preços do leite e crê que as cotações médias este ano podem superar as de 2007, em parte pelos custos de produção mais elevados.

Jacques Gontijo, vice-presidente da Itambé, também acredita em preços mais elevados. Em 2007, segundo ele, o valor médio pago ao produtor foi R$ 0,76 por litro. Deve ficar entre R$ 0,85 e R$ 0,90 este ano, prevê. Mas Gustavo Beduschi, do Cepea/Esalq, avalia que uma eventual elevação dos preços vai depender de quanto o consumidor se dispuser a pagar. Para a produção, a perspectiva é de que siga em alta, diz. De janeiro a novembro de 2007, o índice de captação de leite do Cepea cresceu 8,9% sobre igual período de 2006.