Os produtores de carne da Irlanda comemoram o embargo à carne brasileira anunciado nesta quarta-feira, 31, pela União Européia (UE). Considerados pelo Brasil como protecionistas e os maiores ativistas na Europa contra a carne nacional, os irlandeses vinham pressionando Bruxelas a adotar o embargo. Nos últimos anos, o Brasil deslocou a produção européia e ficou com uma parcela importante do mercado, gerando muita irritação entre os fazendeiros locais.

A decisão da UE foi tomada depois de uma disputa em relação ao número de fazendas que o Brasil teria direito de certificar. O problema começou no final do ano passado, quando a União Européia anunciou que estava impondo novos limites às exportações brasileiras por questões sanitárias.

O governo brasileiro passou então a verificar cada uma das fazendas e, pelos critérios exigidos pelos europeus, certificou mais de 2,6 mil propriedades. Mas os europeus já haviam antecipado que, pelas novas normas, dariam o sinal verde a apenas 300 fazendas.

O governo brasileiro avaliou, no entanto, que se todas as fazendas cumprem os requisitos, não caberia ao Ministério da Agricultura selecionar apenas 3% delas. “Como faríamos para selecionar uma fazenda e não a outra se estão em condições de igualdade?”, questionou um funcionário do ministério em Brasília.

Em Bruxelas, os europeus não escondiam a irritação com a atitude brasileira. Primeiro, pelo número de fazendas, considerado exagerado. Outra confusão foi o fato de cada Estado ter feito uma lista separada. A própria missão diplomática do Brasil junto à UE confessou que não tinha como somar as listas. Com a atitude, o governo jogou de volta para os europeus o problema.

Comenta-se que a pressão dos produtores irlandeses também pesou na decisão de embargo à carne brasileira. A Irlanda é quem mais sofre com a concorrência da carne brasileira. A comissária de Agricultura da União Européia, Mariann Fischer Boel, havia dito que a Europa precisa ser “justa”, e a resposta de Bruxelas ao problema precisa ser “proporcional”. Segundo ela, a limitação em 3% das fazendas brasileiras cumpria a questão da “proporcionalidade”.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista com o presidente da Associação de Fazendeiros da Irlanda, Padraig Walshe, em declarações ao Estado.

Estado – Como o sr. avalia a suspensão da carne brasileira decretada por Bruxelas?

Walshe – Foi a decisão correta e estamos muito satisfeitos. Aqui na Europa queremos a garantia de que a carne que estamos comendo é de qualidade. Por anos os veterinários europeus já vinham indicando que a situação sanitária no Brasil era péssima. Por anos a UE deu inúmeras oportunidades para o Brasil colocar seu sistema de vigilância em ordem. Mas o País parece não ter entendido os recados.

Estado – Como o sr. interpreta a falta de capacidade de o Brasil entregar uma lista de 300 propriedades que seriam autorizadas a exportar?

Walshe – Não sei dizer como fizeram isso. Só posso dizer que o Brasil mais uma vez ignorou as recomendações da UE e, pelo que sabemos, a situação sanitária no País só vem piorando. O País não entendeu que aqui na Europa seguimos exigências sanitárias rígidas e que não podiam continuar enganando dessa forma por muito tempo.

Estado – Mas sua entidade é acusada pelo governo brasileiro e pecuaristas de divulgar informações equivocadas sobre as condições da carne no País e fazer um lobby protecionista. Como o sr. responde a essas críticas?

Walshe – Estamos apenas tratando da qualidade da carne. Os produtores europeus precisam investir milhões para garantir a segurança da carne e acabem competindo com um produto brasileiro sem garantias. Queremos as mesmas condições de competição.

Estado – Até quando o sr. acredita que a suspensão vá durar?

Walshe – Até que a carne brasileira tenha as condições sanitárias exigidas na Europa. O Brasil fracassou em controlar a aftosa, o movimento de gado, sua rastreabilidade e a situação nas fronteiras. A Comissão não teve outra opção senão aplicar a suspensão.