Só depois de concluir e mandar imprimir A Era da Turbulência, seu livro de memórias e previsões, Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, o banco central americano, observou uma ameaça nova pairando sobre a economia global. Era maio de 2007 e, pela primeira vez desde a ascensão da China como potência de mercado, o preço das exportações desse país asiático para os EUA começava a aumentar. Em entrevista a VEJA, em setembro, Greens- pan elegeu esse fenômeno – e não a perspectiva de um estouro da bolha imobiliária americana, como todos imaginavam – como o risco mais preocupante a rondar a economia global. É de compreender.

Durante os dezoito anos em que comandou o Fed, Greenspan viu sua política antiinflacionária contar com a ajuda das importações chinesas baratas. Sem essa força auxiliar, os EUA (e o resto do mundo, diga-se) não teriam obtido as altas taxas de crescimento com juros baixos e sem inflação. Surgem agora sinais de esmaecimento desse fenômeno benigno. Dormida há anos, a brasa da inflação ameaça arder de novo.

Os preços, principalmente os de alimentos, sobem de forma preocupante não apenas na China, onde o consumo de carne mais que duplicou em duas décadas, mas em todo o mundo. Outros países emergentes, como Brasil, Índia e Rússia, registram o mesmo fenômeno. O mundo, é verdade, produziu mais alimentos para tentar equilibrar essa demanda crescente (a produção mundial de cereais de 2007 será 4,6% maior que a de 2006). Mas em volume insuficiente. A cotação mundial de milho, leite e oleaginosas atingiu o nível mais alto em 2007, e a tendência permanece de forte alta. Há outro complicador por trás dos alimentos mais caros.

O estímulo concedido pelo governo americano para a produção de etanol de milho elevou o preço dos alimentos no país mais rico do mundo. Isso porque os produtores americanos abandonaram outras culturas (que por esse motivo também ficaram mais caras) e apostaram no milho para fazer etanol. O país ganhou uma nova fonte de energia, mas caiu a área plantada de alimentos. O preço do milho subiu 27%. O do trigo, 63%.

Dois fatores, portanto, estão por trás da alta da inflação de alimentos: mais bocas para alimentar e a procura por energia limpa, que abocanha espaço das plantações. Seu impacto simultâneo nos preços recebeu recentemente o nome de agflação (aglutinação de agricultura e inflação). O Brasil não está imune a esse fenômeno. Na quinta-feira passada, a Fundação Getulio Vargas anunciou que, em 2007, o aumento de preços medido pelo IGP-M ficou em 7,75%, o dobro do constatado no ano passado. No período, as matérias-primas agropecuárias subiram 22%. “Problemas de oferta, como a queda na safra do feijão, aliados à forte demanda mundial contribuíram para aumentar a inflação dos alimentos”, declarou Marcela Prada, da Tendências Consultoria. Na China, a inflação em 2007 está em 6,5%, enquanto o aumento do preço dos alimentos já atingiu 17,6%. Na Argentina, eles subiram mais de 11%, levando a inflação a patamares acima dos 8%.

Preços mais altos impactam a economia de duas maneiras. Primeiro, desorganizam a produção e inviabilizam o planejamento. Depois, impedem que bancos centrais injetem dinheiro para estimular a atividade econômica quando há risco de recessão – como nos Estados Unidos atualmente. O que fazer para impedir que esse fenômeno interrompa a fase de prosperidade mundial? Não há uma receita única. A China divulgou, ainda na semana passada, o corte em algumas tarifas de importação para aumentar a competição e conter a inflação local. Já o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, sinalizou um aumento das taxas de juro. Estima-se que o encarecimento dos alimentos fará com que alguns países fechem o ano com uma taxa de inflação de dois dígitos – algo que se imaginava quase extinto da economia mundial.

“De maneira geral, os países emergentes terão de ser mais tolerantes com a valorização de sua moeda”, disse Alexandre Maia, economista-chefe da GAP Asset Management. Isso será fundamental para atenuar as pressões inflacionárias – embora não seja possível sufocá-las, pois as cotações de alimentos são globais. Nos últimos anos, a economia brasileira obteve um aumento extraordinário no superávit em conta-corrente, derrubou a cotação do dólar em relação ao real e aumentou as importações. Conseqüentemente, ajudou no controle dos preços. Isso funcionou enquanto o vento da prosperidade com preços baixos soprou a nosso favor. Agora o jogo é outro, e recomenda-se ao governo uma medida mais do que emergencial: que controle os gastos públicos e ajude o país a conter a inflação.