São Paulo/SP – As restrições impostas pela União Européia à carne bovina brasileira fizeram os preços de cortes nobres produzidos no Brasil disparar e alcançar recordes históricos naquele mercado. Traders e frigoríficos afirmam que a perspectiva já era de preços mais elevados por causa da menor oferta na própria Europa e também por parte do Brasil, mas as novas exigências da Comissão Européia, que entram em vigor em 31 de janeiro e devem restringir as vendas brasileiras ao bloco, acentuaram essa tendência.

O resultado é que o preço do filé mignon, o corte mais nobre do boi, está sendo negociado por US$ 25 mil por tonelada, em média, na venda para a Europa, de acordo com Jerry O”Callaghan, da trading Globalbeef. E já há transações pontuais entre US$ 28 mil e US$ 29 mil por tonelada, segundo o executivo de um frigorífico exportador. De qualquer forma, nos dois casos, os preços são os mais altos já registrados.

Os valores não incluem os altos impostos que os importadores pagam pela carne brasileira vendida fora da vantajosa cota Hilton. Além de imposto de importação de 12,8% sobre o valor da tonelada, há uma tarifa fixa de 3.041 euros por tonelada. Antes do anúncio das restrições pela União Européia, em meados de dezembro passado, o preço do filé estava na casa dos US$ 20 mil por tonelada, sem impostos.

Depois de ter enviado uma missão técnica ao Brasil em novembro passado, a UE alegou falhas no sistema de rastreabilidade do gado bovino. Então, exigiu que o governo brasileiro faça auditorias nos ERAs (estabelecimentos rurais aprovados) localizados dentro das regiões do país habilitadas para exportar carne bovina à UE e, partir daí, uma lista com aquelas aptas a fornecer animais para abate e exportação ao bloco. A medida deve reduzir a oferta de bois para os frigoríficos, e consequentemente, o volume de carne para exportação.

Um trader ouvido pelo Valor diz que, diante do cenário de oferta menor de carne, o filé brasileiro pode alcançar até US$ 30 mil por tonelada no mercado europeu se as restrições se acentuarem.

Outro corte que registra alta expressiva desde o anúncio da decisão européia é o contrafilé, que atingiu US$ 7.500 por tonelada. No segundo semestre do ano passado, estava em US$ 5.500, conforme a Globalbeef.

As restrições da UE em um momento em que a oferta brasileira de carne é menor e o mercado doméstico está competitivo para o produto devem levar a uma queda nas exportações de carne bovina in natura, na avaliação de O”Callaghan. A própria Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) admite que isso pode mesmo ocorrer.

Para O”Callaghan, os volumes exportados de carne in natura pelo Brasil devem recuar com as restrições, mas as vendas externas de produto industrializado, sobre os quais não pesam restrições, vão crescer. Dados da Secex compilados pela Globalbeef mostram que os embarques de carne in natura totalizaram 1,281 milhão de toneladas (peso produto) em 2007 e 209,3 mil toneladas de carne industrializada.

A redução nos volumes de vendas não deve significar, contudo, recuo na receita com as exportações de carne bovina. “Com oferta menor e demanda ainda forte, o preço deve ser preservado”, afirmou Jerry O”Callaghan.

Além disso, a expectativa é de que o Brasil amplie este ano as vendas de cortes nobres para mercados emergentes. Mas isso não compensaria as perdas nos embarques para a UE. A Rússia, por exemplo, já compra cortes como filé e contrafilé, mas em volumes pequenos e com preços menores que os pagos pelos países do bloco europeu. Segundo uma fonte da indústria, a diferença é de cerca de US$ 5 mil em relação ao que os europeus pagam em épocas normais, ou seja sem a pressão das restrições.

A redução das ofertas do Brasil também provoca valorização de carnes de outras origens, como Uruguai e Argentina. Normalmente, os preços argentinos superam os da carne do Uruguai, mas atualmente estão nos mesmos patamares. Por exemplo, o “rump loin ” (alcatra, contrafilé e filé) dos dois países sul-americanos estão sendo negociados a US$ 15.500 por tonelada, segundo fonte de frigorífico.

Para O”Callaghan, a Austrália pode surgir como alternativa à América do Sul para os europeus como fornecedora de cortes bovinos nobres. Além do Brasil, a Argentina também está ofertando menos carne no mercado em consequência dos limites às exportações impostos pelo governo do país para evitar a inflação.