A ferrugem asiática, doença responsável por perdas superiores a US$ 10 bilhões nas lavouras de soja nas últimas seis safras, enfim mostra sinais de enfraquecimento no país. O número de focos detectados até o momento é um dos mais baixos desde 2002, quando o Phakopsora pachyrhizi, fungo causador da doença, alastrou-se pelas plantações brasileiras.

Segundo os dados do Consórcio Antiferrugem, da Embrapa Soja, o número de focos registrados na safra 2007/08 é de 620 em todo o país. No ciclo anterior, os focos chegaram a 1.559 até o fim de janeiro. Nesta safra, de acordo com o levantamento, não foram detectados focos no mês de novembro. Na safra anterior, foram 33 os registros.

São dois os principais fatores para a guinada, segundo os especialistas. O mais importante deles é a adoção do vazio sanitário, durante o qual é proibido o plantio de soja safrinha. O intervalo do vazio sanitário é de 90 dias e inclui a erradicação das plantas que nascem de forma espontânea, conhecidas como soja guacha ou tigüera.

“Neste ano, a melhora do combate à ferrugem é significativa. Os plantadores não querem correr o risco de perder soja por causa dos bons preços”, diz José Tadashi Yorinori, da Tadashi Agro, um dos maiores especialistas em ferrugem asiática do país. Contribui para essa melhora, segundo ele, a disseminação de fungicidas genéricos. “O custo por aplicação tem sido, em média, de 10% a 15% menor”, afirma.

O La Niña é o segundo fator para a diminuição da incidência nas lavouras brasileiras de soja. O fenômeno, que se caracteriza pelo resfriamento das águas na faixa equatorial do Oceano Pacífico, reduziu o volume de chuvas nas plantações. O La Niña atrasou o plantio em quase todos os Estados produtores, mas ajudou na contenção da ferrugem, que se espalha mais rapidamente em ambiente mais úmido.

Segundo o Consórcio Anti-ferrugem, a Bahia, na safra passada, chegou ao fim de janeiro com 182 focos de ferrugem asiática detectados. Neste ciclo, ainda não há casos registrados. “A [falta de] chuva ajudou. Cedo ou tarde, a doença pode aparecer, mas o que pode acontecer neste ano é que ela não cause danos como os do passado”, diz Monica Cagnin Martins, que lidera o programa de combate à ferrugem pela Fundação Bahia.

O projeto anti-ferrugem da Associação de Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja) registrou, até ontem, 23 focos da doença no Estado. O número é um pouco superior ao registrado pela Embrapa Soja – que utiliza metodologia diferente na apuração dos dados – até o fim de janeiro da safra anterior.

Ainda assim, a entidade comemora. Dificuldades na detecção dos focos no Estado atestam, segundo os técnicos, que o número de ocorrências foi muito maior que as 17 registradas até o fim de janeiro na safra 2006/07. “Além de a incidência ser menor, ela tem sido bem mais tardia que em outros anos. Já tem produtor colhendo a safra e sem ter sido afetado pela doença”, afirma Luiz Nery Ribas, gerente técnico da Aprosoja.

Um dos Estados com o maior número de ocorrências nesta safra é o Mato Grosso do Sul. São 247 os focos detectados até ontem, segundo a Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro). Ainda assim, o número representa menos que a metade apurada nesta mesma época do último ciclo, de 499 focos. “A ferrugem está um pouco menos agressiva, mas não dá para o produtor baixar a guarda”, diz Eduardo Riedel, vice-presidente da Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul).

O temor com o recrudescimento da doença mostra por que os resultados deste ano ainda são comemorados de forma comedida. Na safra 2004/05, as perdas totais causadas pela ferrugem caíram 37%, para US$ 1,4 bilhão. No entanto, já no ciclo seguinte, elas superaram os US$ 2,6 bilhões, um aumento de mais de 84%. “Até agora, a ocorrência é menor, mas o produtor não pode se descuidar. Se ele achar que a doença está controlada, ela volta com mais força no outro ano”, diz José Tadashi Yorinori, da Tadashi Agro.