Apesar do crescimento da safra de milho, a indústria consumidora poderá ter um início de 2009 tão apertado quanto o atual.

Isto porque as exportações do cereal podem chegar ao recorde de 12 milhões de toneladas – mais uma vez dependendo da safrinha para ser efetivada. O volume é cerca de 10% superior ao embarcado em 2007 – quando somou 10,9 milhões de toneladas ou 180% a mais que no ano anterior.
Isso significa que avicultores e suinocultores podem, mais uma vez, pagar preços altos pelo cereal e correr riscos de desabastecimento.

No início deste ano, as cotações do grão estão entre R$ 24 a R$ 29 a saca (60 quilos), dependendo da região, segundo a Céleres. Mas, apesar do preço considerado alto – há um ano o cereal era vendido entre R$ 15 a R$ 25 a saca, dependendo da região – as indústrias do setor e o governo acreditam que a oferta disponível será suficiente até a entrada da safra. Pelos cálculos da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, são 400 mil toneladas nas mãos do governo e outras 5 a 6 milhões de toneladas com a iniciativa privada. “De uma maneira geral o estoque é curto, mas suficiente”, afirma Sílvio Farnese, coordenador-geral de Cereais e Culturas Anuais da secretaria. Semanalmente o governo tem ofertado milho para garantir o abastecimento.

“É um quadro preocupante. O nosso grande problema é que está se exportando, com pouco controle, e o resultado é este preço em janeiro. Se o Brasil quer se firmar como grande exportador, temos de ter a opção de importar milho transgênico”, afirma Érico Pozzer, vice-presidente da União Brasileira da Avicultura (UBA).

Dependência da safrinha
Para Farnese, ainda é cedo estimar que o quadro do ano que vem será semelhante ao atual. “Tudo vai depender da safrinha”, diz. Segundo ele, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma colheita de 53,4 milhões de toneladas e um consumo de 44 milhões de toneladas. Ou seja, teoricamente, o País ainda teria 9 milhões de toneladas para exportar.

Mas os analistas de mercado acreditam que o volume comercializado neste ano pode superar o de 2007. “O País estará super dependente da safrinha para ter estoque”, acredita Fábio Turquino Barros, da AgraFNP – a empresa é mais conservadora no volume exportado: entre 6 e 8 milhões de toneladas.

“O ambiente para exportar é muito bom. Os preços internacionais seguem firmes e, por isso, o País pode repetir o volume anterior ou chegar a 12 milhões de toneladas”, afirma Carlos Cogo, diretor da Cogo Consultoria Agroeconômica. Segundo ele, a tendência é que o comportamento do mercado seja semelhante a do ano passado e estimule a produção da safrinha – que deve superar 15 milhões de toneladas.

Paulo Molinari, analista da Safras & Mercado, também acredita que se o preço atual se prolongar, o produtor vai se sentir motivado e, com isso, aumentar a área entre 1% e 5%, depende do ritmo de colheita da soja. As estimativas preliminares da Céleres indicam intenção de plantio de 4,79 milhões de hectares ou 7,7% superior ao passado. “Imaginávamos que o Brasil chegaria a uma superfície desta de safrinha em sete anos, nunca tão rápido”, afirma Leonardo Sologuren, diretor da Céleres. A empresa prevê uma segunda colheita do cereal de 15,89 milhões de toneladas.

Na avaliação dos analistas, o ritmo das exportações vai depender também do câmbio e do valor praticado no mercado interno. Atualmente, segundo levantamento da Céleres, a paridade exportação está em R$ 21,60 a saca no Oeste do Paraná – abaixo dos R$ 26 a saca para a indústria local, em Cascavel (PR).

Por isso, apesar de eles preverem um volume grande de embarques, até o momento apenas 2 milhões de toneladas foram contratadas antecipadamente para a exportação. “As exportações devem se concentrar no segundo semestre, como ocorreu no ano passado”, acredita Sologuren.

Assim como em 2007, os analistas acreditam que a Europa será a principal consumidora do milho brasileiro. No ano passado, o País comercializou com aquele continente 6,7 milhões de toneladas – cerca de 60% do total embarcado. Mas, na avaliação de Cogo, os prêmios praticados no ano passado não devem se repetir em 2008.

Naquela época, a diferença entre o milho brasileiro e o dos Estados Unidos – que detém 70% do mercado internacional – chegou a US$ 50 a tonelada. No ano passado, o continente teve quebra na safra de trigo – que lá é usado para a produção de ração – e, por isso, precisou comprar milho para garantir seu abastecimento.

No entanto, de acordo com Sologuren, os europeus já estão estudando liberar o uso do grão transgênico para a ração, o que diminuiria o prêmio do cereal brasileiro – único ainda sem a tecnologia.
De acordo com o diretor da Céleres, é esta mudança e o crescimento da safra do Brasil que limitam o aumento das exportações em ritmo como o de 2007.