“Agora não é um bom momento para comprar soja”, afirmou Li Gang, executivo do grupo chinês Jilin Grain, à Dow Jones Newswires. “Alguém pode ter finalmente acordado e perguntado
por que precisamos dos preços do trigo em alta”, disse Vince Boddicker, gerente da Farmers Trading, dos EUA, à Bloomberg. “O que podemos fazer? Os demais mercados estão caindo,
portanto vamos junto”, observou um corretor americano de milho à Reuters.

Para quem acompanhou a terça-feira de baixa das três principais commodities agrícolas em meio à crise nos EUA – e apesar da decisão do banco central americano de reduzir as taxas de
juros do país em 0,75% – e torceu por um dia seguinte mais tranqüilo, a ressaca foi violenta.

Nem o promissor horizonte de longo prazo, sustentado pelo crescimento econômico dos países emergentes, evitou o baque.
Na bolsa de Chicago, maior referência global para o “trio de ferro” dos mercados agrícolas, as baixas foram inclusive maiores que as de terça. Contratos futuros de milho, soja e trigo atingiram a maior desvalorização permitida para um único pregão ou ficaram muito perto disso.

“As pessoas estão movendo capital de risco para salvar investimentos e estão saindo de milho e soja”, apontou Dan Basse, presidente da AgResource, baseada em Chicago.

No Brasil, quem acompanha as projeções para oferta e demanda de grãos também está remodelando cenários. A opinião geral é de preços ainda firmes depois da tormenta, mas cresce a expectativa de uma fuga mais expressiva dos fundos desses mercados e, também por causa disso, de uma acomodação das cotações em níveis pelo menos um pouco mais baixos. Não que
a pressão dos alimentos sobre o custo de vida mundial vá acabar, mas talvez um recuo capaz de reduzir a chamada “agroinflação”.

Segundo Antonio Sartori, da corretora gaúcha Brasoja, a atual fase dos mercados agrícolas ficará na história. Há meses Sartori prevê forte volatilidade – “oscilações de 25%, para cima ou para baixo, são aceitáveis” -, e para ele a turbulência pode aumentar. “Temos que ficar de olho na economia americana – que não terá recessão, mas fatos novos poderão surgir. Isso corrobora um cenário de preços para baixo, mas ainda atraentes”, opina Fabio Silveira, da RC Consultores.

Ontem, o milho foi quem perdeu mais valor entre as três âncoras de Chicago, conforme cálculos do Valor Data baseados nos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez). Os papéis do grão para entrega em maio atingiram o limite de baixa (20 centavos de dólar) e fecharam a US$ 4,8125. Em 2008, com isso, a variação positiva acumulada caiu para 3,11%. Também diminuiu para 14,52% os ganhos nos
últimos 12 meses, e em 24 meses eles agora são de “apenas” 120,5%.

Os contratos de soja com vencimento em maio também bateram no limite de baixa de Chicago (neste caso de 50 centavos de dólar) e encerraram a turbulenta sessão negociados a US$ 12,07. O Valor Data já aponta retração de 0,6% neste ano, mas mostra altas de 62,67% em 12 meses e de 106,32% nos últimos dois anos.

Quando Silveira, da RC Consultores, fala em preços para baixa, ele exemplifica com a soja. Considera possível um recuo para US$ 10.
Sinal dos tempos: até o ano passado, a soja só havia superado US$ 10 em Chicago quatro ou cinco vezes. Daí o desinteresse do grupo chinês Jilin Grain em comprar e todo o interesse em elevar a pressão. Há meses compradores da China – maior país importador de soja do mundo – vêm tentando se defender da disparada, e a tradição milenar do país em negociações comerciais sugere que este é um bom momento.

Para o trigo, a queda dos futuros para maio foi de 29,50 centavos de dólar por bushel (o limite é 30 centavos), para US$ 9,1950. Assim, em 2008 a valorização acumulada desceu para 2,97%
e as gordas altas nos últimos 12 e 24 meses também perderam força. São agora de 86,51% e 172,85%, respectivamente. Na bolsa de Kansas, principal referência para as importações brasileiras, a baixa foi a maior permitida, e o bushel fechou a US$ 9,5475.