A decisão da União Européia de suspender as importações de carne bovina brasileira irá, novamente, desorganizar o mercado de carnes num momento em que os produtores rurais brasileiros preparavam-se para recuperação de perdas, de acordo com avaliação da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), que exige reações fortes do governo brasileiro junto à Organização Mundial do Comércio.

O vice-presidente Enori Barbieri defende que o governo brasileiro dê uma resposta dura à comunidade européia. “Isso é puro protecionismo”. A Faesc prevê que todo o mercado de carne será afetado com a queda no preço praticado em todos os níveis do atacado e do varejo: a carne bovina não exportada será redirecionada ao mercado doméstico e provocará redução de preços de todos os produtos cárneos, especialmente de suínos e de aves.

“A carne bovina é a preferida da dieta do brasileiro e, quando barateia, derruba o consumo das outras carnes”, explica o Barbieri. Prevê que os produtores de grãos também serão negativamente afetados porque o milho – principal insumo de várias cadeias produtivas – também sofrerá queda pois as expectativas de crescimento da demanda serão, agora, frustradas.

A derruba de preços será geral e as perdas novamente serão pesadas. Embora a inspeção realizada pela União Européia, em novembro, não tenha identificado nenhuma falha no controle sanitário brasileiro e apenas apontou não-conformidades no sistema Sisbov de rastreamento de gado, mesmo assim, a Faesc reclama da inércia do Ministério da Agricultura. O órgão não estaria repassando aos Estados os recursos para implantar o sistema. “O governo brinca com a questão sanitária, reduz e contingencia recursos e coloca em risco toda a cadeia produtiva do país”.

SEM ACORDO

A decisão de embargar as carnes foi tomada após autoridades européias e brasileiras não conseguirem chegar a um acordo sobre o número de fazendas que poderiam receber certificação para vender o produto ao bloco. O Brasil indicou cerca de 2.600 propriedades das 10 mil que estão registradas no país. A União Européia, porém, quer restringir esse número a apenas 300. Os europeus se recusaram a publicar a lista de empresas no Diário Oficial do bloco, como estava previsto no cronograma de entendimento sobre o comércio de carne acertado no ano passado, e na prática as importações ficam proibidas, já que nenhuma fazenda brasileira possuirá autorização para exportar.

Barbieri lembra que as exportações de carne bovina do Brasil somaram US$ 4,5 bilhões em 2007, 15% a mais do que no ano anterior, segundo dados divulgados pela Abiec (Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne). Foram 2.850.000 toneladas de carne bovina, 3.250.000 toneladas de frango e 600 mil toneladas de carne suína.Somente para a União Européia as vendas chegaram a US$ 1,5 bilhão: o bloco é o maior comprador do Brasil, que por sua vez é o principal fornecedor da UE.