O número da discórdia hoje no mercado de boi do país é 35 milhões. Essa é a diferença – em cabeças – entre o que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) previa para o tamanho do rebanho brasileiro em 2006 e o que mostrou o Censo Agropecuário do órgão, divulgado no fim de 2007. O levantamento, preliminar, indicou que o rebanho do país era de 169,9 milhões em 2006, 35 milhões a menos do que o número que o próprio IBGE vinha estimando, de 205 milhões de cabeças.

A discrepância assustou analistas e levantou dúvidas em relação à metodologia do IBGE, baseada em informações sobre vacinação do rebanho contra aftosa, considerada pouco precisa. “Vemos o número com cautela, por se tratar de um dado preliminar”, observa Leonardo Alencar, da Scot Consultoria. Ele afirma, contudo, que mesmo que a diferença seja menor – da ordem de 20 milhões, por exemplo -, o abate de matrizes e a redução dos investimentos por parte de pecuaristas nos últimos anos, por causa dos preços desfavoráveis, não seria suficiente para explicar um recuo tão forte.

Por meio de sua assessoria de comunicação, o IBGE justificou que os números previstos anteriormente foram baseados na Pesquisa Pecuária Municipal, que utiliza informações sobre a vacinação do rebanho e na qual não há a ida a campo de recenceadores. Diferentemente do Censo Agropecuário nacional, em que é feita uma “varredura” para obter as informações. O IBGE considera “natural que haja diferença” entre o número previsto anteriormente e o obtido no censo, já que pode haver imprecisões nas informações sobre a vacinação, por exemplo.

Destacando que os dados do Censo Agropecuário ainda são preliminares, o IBGE informou que “a tendência é que haja uma diminuição da diferença” , mas que esta “não deve ficar muito distante de 30 milhões”.

José Vicente Ferraz, da AgraFNP, é um dos que criticam o fato de o IBGE utilizar informações sobre vacinação para contar o rebanho. O Anualpec, publicação anual da AgraFNP, estima um rebanho de 164 milhões de cabeças de gado bovino em 2006, bem mais próximo do indicado no Censo Agropecuário pelo IBGE. Segundo Ferraz, o Anualpec leva em conta o último Censo Agropecuário – neste caso, o de 1995-1996, que estimou um rebanho de 153,058 milhões de cabeças. Sobre o número do IBGE, faz ajustes considerando índices de mortalidade, de nascimento, desfrute e taxas de abate.

Leonardo Alencar também avalia que a contagem do rebanho baseada em informações sobre vacinação “não é muito precisa”.

A discussão sobre os números do rebanho bovino do país ganha importância já que os frigoríficos brasileiros vêm expandindo sua capacidade de abate nos últimos anos, de olho principalmente na exportação. “Algumas decisões foram tomadas em cima de números diferentes”, diz Alencar, observando que algumas empresas levaram em conta o número de 205 milhões para fazer seus investimentos.

Um efeito do rebanho bovino menor no país deve ser a redução dos abates de gado este ano, segundo Alencar, da Scot, com impacto também no volume exportado. A expectativa da consultoria é de que os preços continuem em alta em 2008 e de que os embarques recuem. Conforme levantamento da Scot, o preço médio da carne bovina in natura exportada pelo Brasil, em dezembro passado foi de US$ 2.530,95 por tonelada (equivalente carcaça), o maior patamar desde março de 1999.