“A posição dos fundos [de investimento] pode influenciar o mercado de commodities agrícolas”, diz Mário Friuli, diretor da Link Corretora, principalmente para produtos que o Brasil tradicionalmente exporta, como soja, café e açúcar. Os fundos de investimento vão buscar ajustar posições para mercados com menor risco, justamente o perfil das aplicações do agronegócio. Daí aumenta a possibilidade de os mercados agrícolas entrarem num período de muita volatilidade (variação excessiva de preços), afirma Friuli.

Também para André Diz, economista da SRB (Sociedade Rural Brasileira), provavelmente os negócios com as commodities agrícolas vão apresentar volatilidade maior. “A qualquer novo número [balanço de instituições financeiras, indicadores da economia norte-americana], os fundos podem mudar de posição com muita rapidez, com reflexo nos agrícolas”, afirma Diz. Sem a referência das Bolsas de Chicago e Nova York -fechadas por causa de feriado nos EUA-, os negócios na BM&F apresentaram ontem baixa generalizada de preços nos pregões de café, soja e milho.

Segundo Diz, da SRB, a tendência do mercado agrícola no médio e no longo prazo é registrar impacto menor que outros setores, “a não ser que a crise da economia norte-americana seja muito profunda”. Pedro de Camargo Neto, presidente da Abipecs (Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína), diz ser crucial avaliar as conseqüências da crise norte-americana na Europa e na Ásia, esses, sim, grandes mercados para os produtos exportadores pelo agronegócio brasileiro.

Efeito indireto

Para Fernando Galletti de Queiroz, presidente do Grupo Minerva, um dos principais exportadores de carne bovina do país e que tem ações negociadas na Bovespa, a turbulência no mercado financeiro não causa impacto direto na pecuária. Se os mercados esperam recessão, no máximo pode haver algum efeito indireto, diz. “Os fundamentos são firmes, por causa dos biocombustíveis [mercado em ascensão puxada pelos EUA, com o uso de milho na produção de álcool] e da demanda asiática por alimentos”, afirma Ricardo Cotta, superintendente técnico da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

Márcio Lopes de Freitas, presidente da OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), trabalha com a estimativa de que 40% da nova safra de grãos esteja “hedgeada” -com alguma proteção, seja pela pré-comercialização definida ainda no ano passado ou pelos contratos do mercado futuro.

Segundo Fábio Meneghin, analista da Agroconsult, não deve haver impacto entre a recessão dos bens de consumo dos EUA nem na própria agricultura norte-americana -“2008 deve ser um novo ano de preços firmes para soja, milho, algodão e trigo”. A desvalorização do real ante o dólar, segundo Camargo Neto, da Abipecs, talvez seja, para o agronegócio, o único ponto positivo derivado da turbulência dos mercados.

“Mas esse movimento não compensa o risco de aumento de juros, que pode ser adotado contra a instabilidade financeira”, afirma Camargo Neto. Segundo Diz, da Sociedade Rural Brasileira, a possível variação do câmbio ocorre num “momento não tão ruim”. Se o real se desvalorizasse no final do ano passado, época da compra de insumos cotados em dólar -como fertilizantes para o plantio da safra-, o eventual impacto nos custos traria muito mais preocupação.