Como potência agrícola, o Brasil é o país que mais poderia ganhar com a Rodada do Desenvolvimento, criada em 2001 para reduzir as distorções do comércio global.

Questionados sobre as prioridades para a abertura de mercados externos, dez entre dez empresários do agronegócio encabeçariam a lista com a Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC). Durante os últimos meses, as negociações globais desapareceram da agenda dos executivos do setor, que desmobilizaram seu aparato de lobby a favor de Doha. Deixaram de apoiar o governo com pesquisas e é cada vez mais raro gastarem tempo e dinheiro em uma viagem a Genebra, sede da OMC.

Como potência agrícola, o Brasil é o país que mais pode ganhar com a Rodada do Desenvolvimento, criada em 2001 para reduzir as distorções do comércio global. Nesta lógica, o agronegócio brasileiro se tornou dos motores de impulsão, pressionando o governo por avanços. As negociações ainda são importantes para o setor, mas a falta de resultados gerou desânimo, frustração e desinteresse. “A negociação de Doha é como enxugar gelo”, compara Marcus Vinícius Pratini de Moraes, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). “Há um desânimo com a dificuldade de fechar algo ambicioso”, diz Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). “Desistimos”, resume Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs) e mentor do vitorioso painel do algodão contra os EUA.

Pragmáticos, os empresários voltaram esforços para temas que podem render resultados concretos, como sanidade, sustentabilidade ambiental ou barreiras não-tarifárias. Enquanto os frigoríficos de carne bovina estão às voltas com as restrições da União Européia, os criadores de carne suína querem abrir as fronteiras do Chile. Para os usineiros, criar um mercado global de etanol se tornou prioridade número um. Os plantadores de soja estão sendo cobrados pelo desmatamento da Amazônia. Nada disso está diretamente relacionado com a Rodada Doha.

“Não há a menor dúvida que tem sido uma perda de tempo”, diz Pratini de Moraes, que, quando ocupava o cargo de ministro da Agricultura, participou do lançamento das negociações na capital do Catar. Ele explica que os países desenvolvidos não querem rever a política agrícola e que as eleições nos EUA reduzem as chances de êxito. Pratini insiste, porém, na importância do sistema multilateral. Como exporta para vários países, diz ele, o Brasil precisa de regras multilaterais e do direito de questionar barreiras na OMC.

Para pecuaristas e frigoríficos, restrições sanitárias se tornaram mais importantes do que a remota possibilidade de abrir mercados com Doha. “Abandonei a Rodada e a sanidade ocupou a prioridade”, diz Camargo Neto. Ele ressalta que, por questões internas, o Brasil deixa de vender carne suína para Japão, Coréia ou Estados Unidos. Camargo Neto diz também que perdeu a “confiança na estratégia do Itamaraty”. Ele está convencido que o governo errou ao desistir de utilizar a vitória no algodão para pressionar os americanos.

Christian Lobhauer, presidente-executivo da Associação Brasileira dos Exportadores de Frango (Abef) , diz que para o setor o que interessa em Doha é o acesso ao mercado europeu, fechado por meio de altas tarifas, salvaguardas e barreiras específicas. “As propostas apresentadas estão longe do mínimo aceitável”, diz. Durante as negociações, os europeus ofereceram elevar a cota de importação mundial em 90 mil toneladas, enquanto o Brasil pedia 250 mil apenas para si. “Quando chega a esse nível de distância, pará tudo”.

O coordenador do Centro de Estudos de Negociações Internacionais (Caeni), da Universidade de São Paulo (USP), Amâncio Jorge de Oliveira, é um estudioso do papel do setor privado nas negociações comerciais. Ele avalia que a mudança de foco da diplomacia corporativa foi provocada pela conjuntura, ou seja, uma associação de posturas defensivas de vários países resultou numa paralisia das negociações. “E o setor privado, que é mais pragmático, foi cuidar da vida”, afirma. O diagnóstico é o mesmo de André Nassar, diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone). Ele explica que o acordo esboçado hoje na OMC abre exceções e preserva os interesses protecionistas, como subsídios agrícolas nos EUA e acesso a mercados na UE. Nassar diz que o governo brasileiro também vai obter maneiras de proteger a indústria. “Para o país, pode até ficar balanceado, mas para a agricultura, não”, diz.

Nos últimos anos, o setor privado brasileiro se organizou para influenciar as negociações comerciais, como OMC, Alca ou o acordo bilateral com a UE. Empresas, associações, federações e confederações criaram departamentos e contrataram especialistas para interferir no processo. Só que as negociações não caminharam e agora é preciso desmontar essa estrutura. O Icone, por exemplo, foi o braço direito do governo com estudos técnicos sobre as negociações. Agora mudou de foco. Segundo Nassar, o instituto se dedicará a outros temas relacionados com o comércio, como tendências de preços e demanda, políticas de certificação e sustentabilidade.

Jank, que hoje está na Unica e foi o fundador do Icone, diz o que setor agrícola não está “desinteressado” das negociações comerciais, mas, sim, “desanimado” com a falta de resultados. Ele pondera que a OMC é o único fórum no qual podem ser discutidos, por exemplo, a redução dos subsídios fornecidos aos produtores de açúcar ao redor do mundo. “Por isso, a Rodada Doha é fundamental”, afirma. Roberto Rodrigues – que coordena o centro de agronegócios da Fundação Getúlio Vargas e preside o Conselho Superior de Agricultura da Fiesp – era ministro da Agricultura quando a diplomacia brasileira, junto com Índia e China, fundou o G-20, grupo que se tornou em uma das forças da Rodada. Rodrigues diz que o setor agrícola brasileiro se deu conta de um fato: graças a maior produtividade, o Brasil ganhou mercado sem qualquer acordo comercial. “Os empresários entenderam que o fundamental é avançar em sanidade, logística, portos, impostos”, diz.

Amâncio, do Caeni, diagnostica que a Rodada Doha pode estar num ciclo vicioso. Se a agricultura brasileira e outros setores interessados nos países envolvidos desanimam com a lentidão do processo e diminuem a pressão, os governos se esforçam menos para concluir as negociações, que vão se tornar ainda mais lentas. “Ninguém quer decretar a morte da Rodada Doha”, diz o professor, mas a tendência é que seu estado de saúde vá de mal a pior este ano.