‘A afirmação mais imbecil que já ouvi’, diz representante dos produtores
Revoltado com o posicionamento do Iagro, o presidente do Movimento Nacional dos Produtores, João Bosco Leal disse que multar os produtores que tiveram suas terras ocupadas por índios, em Japorã, é um ato vergonhoso. “Juridicamente falando esta é a afirmação mais imbecil que já ouvi. As terras estavam em poder dos índios e o Iagro deveria ter entrado lá em parceria com a Polícia Federal e vacinado o rebanho”, disse.
Na avaliação de Leal, os produtores já tiveram muitos prejuízos com a ocupação e ainda correm o risco de serem multados e, o que é pior, não podem comercializar os seus produtos. “A interdição significa prejuízos para a nossa economia. É inadmissível o índio não tem o direito de prejudicar a economia do País. O que estava em discussão era a terra”.
Apesar do descontentamento com o órgão, Leal acredita que, por um lado a atitude do órgão é até compreensível, já que está em jogo a sanidade dos animais. “Mas por outro, é uma verdadeira vergonha, pois os fazendeiros já tiveram muitos prejuízos durante estes dois meses em que as 14 propriedades ficaram em poder dos índios”, reforçou.
O procurador Charles Pessoa, que acompanha o caso em Dourados não foi encontrado ontem para comentar o assunto.
DESOCUPAÇÃO
Segundo informações de Leal, na quarta-feira passada os índios desocuparam as sedes de 11 propriedades, concentrando-se em apenas três, Paloma Remanso Guassu e São Jorge. “Os proprietários das demais fazendas retornaram para os locais, mas os índios ainda rondam as propriedades”, disse.
Falta de vacinação e dúvidas sobre a sanidade da região podem levar Iagro a impedir trânsito de animais
O Iagro (Agência Estadual de Defesa e Vigilância Sanitária) pretende baixar uma portaria para suspender o trânsito de gado bovino do município de Japorã. No local existem 14 propriedades onde os animais ainda não foram vacinados contra a febre aftosa em função do conflito entre fazendeiros e índios guaranis-caiuás. Além da falta de vacinação, outra preocupação do órgão é quanto a condição sanitária do local, que desde a ocupação não tem passado por nenhum controle.
O prazo para vacinação acaba no domingo. Segundo os pecuaristas, na região existiam pelo menos 8,6 mil cabeças de gado antes da invasão indígena. Conforme o gestor de Defesa Sanitária Animal do Iagro, Afonso Dutra de Oliveira, a medida seria necessária para preservar a condição sanitária do Estado, que é considerado livre de febre aftosa com vacinação, e manter abertas as portas para a exportação de carne.
“Se os fazendeiros não conseguirem se organizar e vacinar o gado o Iagro terá de tomar uma medida definitiva. Com a suspensão do trânsito de animais em todo o município não vai entrar nem sair gado nenhum”, explicou Dutra.
Ontem pela manhã a gerência do Iagro havia cogitado a possibilidade de estender a suspensão também a Iguatemi, município vizinho a Japorã, caso ficasse aprovado que haveria riscos de contaminação. Dutra explicou que essa hipótese já está praticamente descartada, visto que os dois municípios são separados pelo rio Iguatemi.
A ligação entre as duas cidades é feita através de uma ponte, onde existe uma barreira do Iagro. O órgão deve ativar o posto para impedir a passagem de animais pela ponte, caso a portaria seja mesmo editada.
Para Dutra, a medida seria uma atitude drástica, mas necessária diante das circunstâncias. “Já enviamos equipe ao local para fazer a imunização do gado, mas os técnicos não conseguiram realizar o trabalho”, relembra.
Segundo Dutra, um dos empecilhos foi a falta de organização do gado. Os animais não haviam sido separados e colocados em cerca para receber a vacina. Os pecuaristas justificaram receio de entrar nas propriedades e serem surpreendidos pelos indígenas. Segundo os fazendeiros, em algumas áreas os índios não estariam liberando os cavalos para os peões executaram o trabalho.
O advogado dos produtores da cidade, Osmar Silva, disse que havia pedido na Justiça que a Polícia Federal acompanhasse a vacinação. “Sem esse apoio não será possível vacinar os animais”, explicou, alegando que ainda aguarda o parecer da Justiça.
Para quem não fizer a vacinação na data, a multa será de R$19,40 por animal, enquanto para quem não fizer o registro a multa será de R$3,00 por animal. No ano passado as três campanhas de imunização contra a doença atingiram 98% do rebanho de Mato Grosso do Sul, estimado em 24,9 milhões de cabeças.
Desde quarta-feira os produtores rurais que tiveram fazendas invadidas por índios começaram a retornar às sedes das propriedades em Japorã. Conforme o presidente do MNP (Movimento Nacional de Produtores), João Bosco Leal, os fazendeiros voltaram para 11 das 14 áreas ocupadas.
O problema, segundo os ruralistas, é que os índios ainda não deixaram totalmente estas propriedades, o que estaria impedindo que o trabalho fosse realizado com tranquilidade.
Somente as fazendas Remanso-Guassu, Paloma e São Jorge continuam ocupadas por índios. Essas propriedades foram divididas para abrigar grupos de índios até que a decisão judicial aponte o fim do impasse.
Campo Grande – Um grupo com quase 350 homens, mulheres e crianças indígenas da nação guarani-kaiowá está resistindo ao despejo determinado juíza substituta da Vara Federal, Luciana Melchiori Bezerra, na última sexta-feira. Liderados pelo cacique Carlito de Oliveira, eles invadiram a Fazenda Campo Belo, situada no município de Dourados, região sul de Mato Grosso do Sul e a 220 quilômetros de Campo Grande. Carlito afirma que os índios não têm para onde ir e estão dispostos a enfrentar as consequências da permanência no imóvel.
Para o cacique, a situação que vivem atualmente não é pior a que estavam submetidos antes da invasão. Há cinco anos consecutivos a tribo vive montando e desmontando acampamentos em diversos lugares do município, depois que perderam suas terras. Os invasores viviam na Aldeia Indígena de Dourados, de onde foram expulsos pelo o cacique Ramão Machado, depois de vários desentendimentos com Carlito Oliveira.